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Na cidade que silenciou vozes,
o Estado pede perdão 

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"Para que nunca mais aconteça, precisamos que não se esqueça. Ditadura nunca mais!"

 

- Vera Paiva, professora, filha de Rubens Paiva e integrante da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP).

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O silêncio foi interrompido por aplausos contidos e vozes que gritavam por justiça no salão nobre da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). No centro do espaço, familiares carregavam fotos de desaparecidos políticos e aguardavam para receber as novas certidões de óbito que reconheceram oficialmente os crimes que o país levou décadas para admitir. É o Estado, enfim, reescrevendo parte de uma história enterrada há muito tempo.

A cerimônia foi realizada em 8 de outubro pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), por meio da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) e contou com a presença da ministra dos direitos humanos, Macaé Evaristo, conselheiros da CEMDP, familiares, estudantes e professores da USP. Foram entregues 63 certidões de óbito retificadas de pessoas mortas e desaparecidas políticas durante o período da ditadura militar (1964–1985), como Vladimir Herzog, Carlos Marighella e Rubens Beyrodt Paiva, nomes emblemáticos da resistência e luta pelos direitos humanos no Brasil.

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Em seu discurso, Vera Paiva, filha de Rubens Beyrodt Paiva e integrante da CEMDP, refletiu sobre a importância da memória e destacou que a busca incessante por justiça é também uma forma de manter vivos os que foram silenciados pela ditadura. ​​

"A gente se pergunta: como estariam particiando da nossa família? Como estariam aproveitando a maturidade dos filhos e que fotos estaríamos tirando da sua convivência com os netos? Quando as pessoas perdem familiares e amigos, ao mobilizar a memória de entes queridos, é assim que afetivamente lembram deles. No caso das pessoas assassinadas por ditaduras, em especial daqueles cujos corpos nunca foram entregues às famílias e amigos, seguimos há décadas [...] buscando a verdade sobre a morte, mobilizados pela necessidade de justiça e reparação.

A ministra Macaé Evaristo destacou que a entrega das certidões marca um momento histórico no país, reconstruindo a memória das vítimas assassinadas pela ditadura que lutaram pela democracia brasileira. 

O estado de São Paulo concentrou a maior parte das ações de repressão política do país durante a ditatura militar. Na capital paulista, funcionavam os principais centros de tortura e investigação, como o DOPS e o DOI-Codi, por onde passaram centenas de militantes presos, torturados e desaparecidos.  Foi também em território paulista que o regime apagou as evidências de seus crimes, enterrando corpos sem nome no cemitério de Perus, onde, anos depois, viriam à tona as marcas da violência do Estado.

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Período obscuro 

Luiz Eurico Tejera Lisboa desapareceu em 1972 e seus restos mortais foram encontrados no Cemitério Dom Bosco, localizado no bairro de Perus, na zona norte de São Paulo, com o nome de Nelson Bueno. Luiz foi uma das primeiras vítimas identificadas da ditadura. 

Nascido em 1948, em Santa Catarina, foi militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) e atuou no movimento estudantil desde os 15 anos, quando começou a se posicionar contra o regime militar. Luiz viveu na clandestinidade após ser perseguido e preso por sua militância política.

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Aos 83 anos, Suzana Lisboa, viúva de Luiz Eurico, carrega na voz o cansaço de quem espera há décadas por respostas. Para ela, receber a certidão do marido é simbólico, mas ainda insuficiente.

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Durante décadas, Suzana viveu entre a angústia e a esperança de encontrar Luiz Eurico com vida. O momento em que seu corpo foi encontrado encerrou a espera, mas aumentou a responsabilidade de continuar lutando pelos demais familiares que ainda não tiveram respostas.

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Na cerimônia, Suzana Lisboa recebeu o atestado de óbito do marido e reafirmou a sua luta para punir os responsáveis.

No mesmo período, Criméia de Almeida, militante e ex-Guerrilheira do Araguaia, foi presa em São Paulo pela Operação Bandeirante (Oban) e foi levada ao DOI-Codi, junto com sua irmã, Amélia Teles, seu cunhado e seus dois sobrinhos. Ela foi torturada grávida de sete meses. Para ela, a força para lutar por justiça veio da raiva que sentiu durante o período de tortura.

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A militante também acrescenta que, embora o reconhecimento do Estado seja importante, ainda há dívidas que permanecem impunes.

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Histórias que resistem

Entre relatos de quem sobreviveu e discursos de quem herdou essa memória, a cerimônia reuniu gerações ligadas por uma mesma causa: a de não deixar o esquecimento vencer. Jovens e sobreviventes da ditadura dividiram o microfone e o mesmo sentimento de reparação tardia. Entre os discursos, o de Gabriel Borges, estudante do Diretório Central dos Estudantes Alexandre Vannucchi Leme, da USP, lembrou que a cerimônia não é apenas uma homenagem, mas a continuidade de uma causa interrompida pela violência do Estado:

"Estar aqui neste espaço para retificar que essas mortes foram causadas pelo Estado brasileiro, que elas trazem consigo a marca da tortura, do terrorismo de Estado, mas também de uma causa legítima, inspiradora e que vale ser lutada. Estar aqui hoje é uma luta não só nossa, mas também uma vitória desses importantes companheiros."

Bianca Borges, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), também esteve na cerimônia e, em tom de manifesto, reafirmou a necessidade da reparação feita pelo Estado por meio das certidões, sendo um gesto contra o esquecimento e a reescrita do que a ditadura tentou silenciar.

“Cada nome lido aqui hoje é um grito que atravessou décadas de silêncio, essas certidões devolvem a verdade onde o estado antes escreveu a mentira, e com elas o Brasil reafirma: a história não pode ser escrita pelos nossos algozes.”

Bianca também reforçou que a memória é uma forma de resistência coletiva.

"Nós não nos calaremos, não consentimos. Pronunciar os nomes, retificar os
registros, é arrancar do silêncio a verdade que tentaram esconder. Cada vez que o Brasil perdoa quem atenta contra a democracia, ele condena o futuro a reviver as mesmas feridas”.
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